As coisas são criadas pela mente

“Manopubbaṅgamā dhammā – manoseṭṭhā manomayā
Manasā ce paduṭṭhena – bhāsati vā karoti vā
Tato naṃ dukkhamanveti – cakkaṃva vahato padaṃ”

Este é o primeiro verso da coleção chamada Dhammapada, um dos livros que fazem parte do cânone Pāli, onde encontramos preservados os discursos do Buda na língua conhecida como “Pāli”.

Não é atoa que este verso inicie a coleção. Nestas poucas palavras, encontramos ensinamentos sutis, intimamente ligados às descobertas que o Buda realizou enquanto meditava sob a árvore Bodhi. Ao contemplar estas palavras, no entanto, é fácil deixar que a mente – o “personagem principal” do verso acima – preencha lacunas oferecendo interpretações imaginativas e levando-nos à becos sem saída (mesmo que sejam becos atraentes!).

A primeira linha do verso, por exemplo, é bastante popular e tem sido frequentemente traduzida como algo similar à “as coisas são criadas pela mente“, enquanto o restante é muitas vezes omitido. Ao leitor, parece que o Buda está afirmando que o oceano, as árvores, pássaros e planetas são frutos da nossa imaginação! O restante do verso, porém, trai esta proposta. E é nas palavras seguintes onde encontramos a chave para entendermos o que o Buda tem a nos dizer sobre a circunstância em que nos encontramos. Abaixo, ofereço uma tradução para o verso completo:

“A mente está à frente de tudo o que se sente
A mente está por trás de tudo o que se faz
Sobre tudo a mente é sempre evidente
Da mente, tais coisas são originais
Agir ou dizer palavra com a mente contaminada
Leva a dor a te seguir como a roda, o pé da vaca “

O tema do verso é, portanto, as ações que fazemos em nossas vidas e o efeito que elas produzem. Isso é, sua capacidade de criar sofrimento no futuro. E, por trás do nosso sofrimento e das ações, encontramos a nossa mente. Ao contemplar nosso comportamento no mundo, fica aparente o motivo que levou o Buda à apontar o holofote à nossa mente tão enfaticamente. Seja hoje ou há dois mil e quinhentos anos atrás, nós aparecemos nesse mundo ignorantes sobre seu funcionamento e, imersos nessa ignorância e em sofrimento, somos levados à crer que os outros, o universo ou divindades são os responsáveis pela nossa dor (e, ás vezes, que eles são responsáveis por nossas próprias ações, também!)

No entanto, basta um olhar sóbrio para concluir que os outros (ou divindades) não tem o poder de remover nossa dor. A dor, o Buda aponta, se faz presente enquanto suas condições estão presentes. E estas condições se alteram com nossas ações. O Buda, em seus discursos, declara que há ações saudáveis que possuem a natureza de produzir prazer e felicidade, e ações nocivas que possuem a natureza de produzir dor e sofrimento. E que “uma mente contaminada” nos leva a fazer escolhas e ações nocivas cujo resultado nos segue para onde quer que vamos  – tal qual a metafora colorida oferecida pelo Buda.

Assim, no vasto número de ensinamentos do Buda ainda preservados, encontramos o mais profundo e sofisticado sistema ético ao nosso dispor, nos oferecendo em detalhes como conduzir, investigar e entender nossas vidas de forma a satisfazer nossa busca mais profunda e universal: a busca pela felicidade. Ou, pelo menos, aprender à diminuir nosso sofrimento. Hoje, nós, ocidentais, temos a oportunidade singular de acessar estes discursos em traduções modernas para o inglês e amplamente aceitas em meios monásticos e acadêmicos. Sugerimos as traduções dos quatro volumes de discursos do Buda realizadas pelo monge americano Bhikkhu Bodhi e sua antologia, In the Buddha’s Words: An Anthology of Discourses from the Pali Canon.